Imagine um caso típico de canteiro: uma equipe compra 800 sacos de CP V ARI para concretar o bloco de coroamento de um sobrado de 4 pavimentos. Em poucos dias, o concreto trinca.
O culpado não é a obra: é o cimento errado pra peça errada. CP V libera calor de hidratação altíssimo.
Em volume maciço, esse calor cozinha o concreto por dentro enquanto a superfície já esfriou. Resultado: retração térmica, fissura passante, laudo pericial. É um caso ilustrativo — mas o mecanismo é real e recorrente.
Este guia te entrega o que importa: composição, classe de resistência, ambiente certo e os 5 erros que destroem obra. Tudo amarrado à NBR 16697:2018, a norma vigente.
O que é cimento Portland (em linguagem de obra)
Cimento Portland é um pó cinza que, ao misturar com água, vira pedra artificial. Esse "virar pedra" tem nome técnico: hidratação.
As partículas absorvem água, formam cristais e se intertravam, prendendo areia e brita numa massa monolítica que ganha resistência por anos.
Foi patenteado em 1824 por Joseph Aspdin na Inglaterra. O nome vem da Ilha de Portland, cuja rocha calcária se parece com o concreto endurecido.
A receita é simples na ideia: calcário (cerca de 80%) + argila (cerca de 20%) moídos finos, queimados num forno rotativo a 1450 °C. Sai dali o clínquer, em bolinhas pretas do tamanho de uma azeitona.
O clínquer sozinho endureceria em segundos. Por isso o fabricante moe o clínquer junto com 3 a 5% de gipsita (sulfato de cálcio), que segura a reação e dá tempo de trabalhar o concreto.
Dentro do clínquer existem 4 minerais que mandam no resultado: C3S (resistência inicial), C2S (resistência longa), C3A (pega rápida e calor) e C4AF (cor escura). Mudar a proporção deles muda o tipo de cimento.
A partir do clínquer + gipsita, o fabricante adiciona escória de alto-forno, pozolana ou filer calcário. É essa adição que define se o saco vira CP II, CP III ou CP IV.
Analogia rápida: imagina o clínquer como farinha pura, a gipsita como o sal que segura o ponto, e as adições (escória, pozolana, filer) como temperos que mudam sabor e tempo de cozimento.
Receita de cimento com mais clínquer = "pão branco rápido": ganha resistência cedo, custa mais e gera mais calor. Receita com mais adição = "pão integral": ganha resistência devagar, dura mais e polui menos.
NBR 16697:2018 — a norma que unificou tudo
Antes de 2018, cada tipo de cimento tinha sua própria norma: NBR 5732 (CP I), 5733 (CP V), 5735 (CP III), 5736 (CP IV), 5737 (cimentos resistentes a sulfato), 11578 (CP II), 12989 (CPB) e 13116 (baixo calor).
Era um labirinto. O engenheiro especificava "CP II-E-32" e tinha que consultar duas normas pra checar conformidade.
Em 2018, a ABNT publicou a NBR 16697 — Cimento Portland: Requisitos e unificou todas essas oito normas num documento único.
Hoje, qualquer saco vendido no Brasil tem que vir marcado conforme NBR 16697. Veja na lateral: tipo, classe de resistência, mês e ano de fabricação. Se faltar alguma dessas marcações, recuse a entrega.
Os 5 tipos principais (com tabela)
A NBR 16697 reconhece 5 tipos base de cimento Portland (CP I a CP V), identificados pela sigla CP seguida de algarismo romano. A diferença entre eles é a quantidade e o tipo de adição misturada ao clínquer.
O CP II ainda se desdobra em três subtipos pela adição usada — E (escória), F (filer) e Z (pozolana) —, por isso a tabela abaixo traz 7 linhas. O CPB (branco) é caso à parte, detalhado mais adiante.
| Tipo | Composição | Uso típico | R$/saco 50 kg (2026) |
|---|---|---|---|
| CP I (comum) | 95-100% clínquer + gipsita, com até 5% de material carbonático | Peças decorativas, referência de laboratório, fck baixo | R$ 42 — R$ 50 (estimativa) |
| CP II-E (escória) | 51-94% clínquer + 6-34% escória (+ até 15% filer) | Concreto de uso geral, fundação, pilar, laje | R$ 38 — R$ 45 (estimativa) |
| CP II-F (filer) | 75-89% clínquer + 11-25% filer calcário | Argamassa, contrapiso, alvenaria estrutural | R$ 36 — R$ 43 (estimativa) |
| CP II-Z (pozolana) | 71-94% clínquer + 6-14% pozolana (+ até 15% filer) | Concreto em meio úmido, reservatório | R$ 40 — R$ 46 (estimativa) |
| CP III (alto-forno) | 25-65% clínquer + 35-75% escória | Subsolo, fundação, ambiente agressivo, calor moderado | R$ 40 — R$ 48 (estimativa) |
| CP IV (pozolânico) | 45-85% clínquer + 15-50% pozolana | Barragem, obra marítima, beira-mar | R$ 42 — R$ 50 (estimativa) |
| CP V ARI | 90-100% clínquer (alta finura) + até 10% material carbonático | Pré-moldado, concretagem rápida, reparo | R$ 48 — R$ 58 (estimativa) |
Marcas principais no Brasil: Votorantim, InterCement, Holcim, Cimpor, CSN Cimentos e Mizu.
Cada uma vende a maioria dos tipos acima, mas a disponibilidade muda por região. Em São Paulo é fácil achar CP III; no Nordeste, CP IV domina.
Quando usar cada um (regra de bolso)
CP I: raro na obra. Usado em laboratório, peça artística e situação onde a pureza importa mais que o preço.
CP II: o curinga. 8 em cada 10 obras residenciais usam CP II-E ou CP II-F. Equilibra preço, resistência e trabalhabilidade.
CP III: alta resistência a sulfato e cloreto. Vai bem em subsolo úmido, esgoto, fundação em terreno agressivo. Bônus: menos clínquer = menos CO2.
CP IV: a escolha para obra marítima e barragem. Resiste a água do mar e tem ganho de resistência progressivo (continua endurecendo aos 90, 180, 360 dias).
CP V ARI: só use quando o cronograma manda. Pré-moldado, viga protendida, reparo emergencial. Em peça grossa, esquece — vai trincar.
Curiosidade de fábrica: a NBR 16697 permite incorporar até 10% de filer calcário no próprio CP V sem perder a sigla ARI, o que reduz custo. Confira a composição na ficha técnica do fabricante.
Em laje pré-moldada e treliçada, o CP V acelera a desforma de 14 para 3 dias, liberando a forma para reutilização. Em obra que aluga forma, a economia paga o cimento mais caro.
Classes de resistência: 25, 32 ou 40 MPa
Depois do tipo (CP II, III etc.), o saco ainda traz uma classe de resistência.
Esse número é a tensão mínima que o cimento garante aos 28 dias, em MPa (megapascal). Quanto maior, mais forte o concreto que ele consegue produzir.
A NBR 16697 padroniza três classes:
- Classe 25: resistência mínima 25 MPa. Argamassa, contrapiso, calçada, concreto não-estrutural.
- Classe 32: resistência mínima 32 MPa. É a classe padrão para concreto estrutural em casa e prédio.
- Classe 40: resistência mínima 40 MPa. Pré-moldado, viga protendida, estrutura de alto desempenho.
Cuidado: a classe do cimento NÃO é o fck do concreto. Um saco de CP II-E-32 pode produzir concreto com fck 20, 25 ou 30 MPa.
Tudo depende do traço (proporção de cimento, areia, brita, água). Quem define o fck é o projeto estrutural, conforme NBR 6118.
Pela NBR 6118, o fck mínimo do concreto armado sobe com a agressividade: 20 MPa em meio rural (CAA I), 25 MPa em meio urbano (CAA II) e 30 MPa em meio marinho ou industrial (CAA III).
No caso mais severo (CAA IV — respingos de maré, indústria muito agressiva), a norma exige 40 MPa. Subestimar isso em beira-mar é receita de armadura corroída.
Como cruzar tipo e classe? Para casa de 2 pavimentos no interior, CP II-E-32 resolve. Sobrado em capital, CP II-F-32 ou CP III-32. Subsolo de prédio em zona litorânea, CP III-40 ou CP IV-40.
O preço do saco varia pouco entre classes 25 e 32 (R$ 2 a R$ 4 de diferença). Subir pra 40 sai mais salgado e raramente compensa em obra residencial padrão.
CPB — o cimento branco do concreto aparente
O CPB (Cimento Portland Branco) tem a mesma química do Portland comum, mas usa matérias-primas com pouquíssimo ferro e manganês.
É o ferro que dá a cor cinza ao cimento normal; tirando o ferro, sai branco.
Custa cerca de 3 a 5 vezes mais que CP II. Fica restrito a aplicações onde a cor importa: rejunte de porcelanato, fachada de concreto aparente branco e mobiliário urbano com pigmento.
Dois tipos pela NBR 16697:
- CPB Estrutural (classes 25, 32 e 40): serve pra estrutura aparente branca — a curva de concreto branco que Oscar Niemeyer consagrou em Brasília é o exemplo clássico.
- CPB Não Estrutural: só pra rejunte, argamassa decorativa e revestimento. Não aguenta carga estrutural.
Se sua obra tem concreto aparente colorido (pigmentado), use CPB. Sobre cimento cinza, qualquer pigmento vira tom de poça de barro.
Veja também: Casa de concreto: estética, custo e detalhamento
Cura do concreto (NBR 14931): o passo que ninguém respeita
Cura é manter o concreto úmido depois da concretagem. Sem cura, a água da mistura evapora antes do cimento terminar de reagir, e a peça perde até 40% da resistência projetada.
A norma que rege a etapa é a NBR 14931:2023 — Execução de estruturas de concreto armado, protendido e com fibras: Requisitos.
Ela exige que a cura úmida (molhar a peça, cobrir com manta saturada ou usar curador químico) continue até o concreto atingir resistência suficiente.
A norma não tabela dias por tipo de cimento — os prazos abaixo são regra prática de engenharia, que cresce quanto mais lento é o ganho de resistência:
- CP V ARI: na prática, mínimo 3 dias (algumas referências adotam 7 por segurança).
- CP I e CP II: na prática, mínimo 7 dias.
- CP III e CP IV: na prática, mínimo 14 dias (alguns projetistas chegam a 28).
Quanto mais lento o ganho de resistência, mais longa precisa ser a cura. CP III e CP IV ficam ganhando força até 1 ano depois da concretagem — mas só se a água continuar disponível pra reação.
Truque de obra: na laje, deixe uma lâmina de 2 cm de água em cima por uma semana, contida por cordão de areia úmida no perímetro. Funciona melhor que aspersão.
Em pilar e viga vertical, manta geotêxtil molhada amarrada com fio plástico segura a umidade por 24 horas entre regas. Em dia quente, regue de manhã, ao meio-dia e no fim da tarde.
O sinal de cura malfeita aparece como fissura fina superficial em forma de teia de aranha (retração plástica), nas primeiras 12 horas após o lançamento.
Quando essas trincas aparecem, a peça já perdeu resistência e a única saída é tratamento corretivo com selante epóxi — caro e estético-dependente.
Leia também: Baldrame: o que é, dimensionamento e execução
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5 erros que rachuram a obra (e o laudo)
Erro 1 — CP V ARI em peça maciça. Bloco de coroamento, radier espesso, viga baldrame robusta são o pior cenário.
O calor de hidratação pode passar de 60-70 °C no miolo, o exterior esfria e a peça trinca por retração térmica. Use CP III ou CP IV.
Erro 2 — CP I em ambiente úmido. Sem adições, o CP I tem baixa resistência a sulfato e cloreto.
Em subsolo, fundação enterrada ou contato com solo, escolha CP III ou CP IV. CP I serve pra laboratório, não pra obra real.
Erro 3 — Concreto sem aditivo plastificante. Adicionar água extra no caminhão pra "ficar mais mole" aumenta o fator água/cimento e derruba o fck.
O caminho certo é aditivo plastificante (0,3 a 0,8% sobre o peso do cimento), sem mexer na água.
Erro 4 — Fck especificado em projeto ≠ fck na obra. Engenheiro pede C30 (fck 30 MPa), encarregado compra C20 pra economizar.
Quando o laudo aparece, a estrutura já está pronta. Cheque a nota da concreteira contra o memorial do projeto.
Erro 5 — Aceitar concreto sem ensaio de slump. O cone de Abrams (NBR 16889) mede a consistência. Slump fora da faixa especificada = concreto fora do traço. Devolva o caminhão.
Aprofunde: Viga invertida: quando usar e como detalhar
Conclusão
Escolher cimento não é "comprar o mais barato do depósito". É ler o projeto, identificar o ambiente, dimensionar a peça e fechar o pedido pelo tipo + classe corretos.
A regra de ouro: CP II pra obra residencial padrão; CP III ou CP IV pra subsolo e ambiente agressivo; CP V ARI só em pré-moldado; CPB pra aparente colorido.
Cure por 7 a 14 dias e jamais aceite concreto sem ensaio de slump.
Próximo passo: pegue o memorial do seu projeto, veja o fck especificado e cruze com a tabela deste post. Se ainda restar dúvida, fale com o calculista antes de comprar 800 sacos do tipo errado.
Perguntas Frequentes
Qual a diferença entre CP II e CP V ARI?
CP II tem adições (escória, pozolana ou filer calcário) e ganho de resistência ao longo de 28 dias. É o cimento de uso geral em obra residencial.
CP V ARI tem clínquer puro com finura alta, libera muito calor de hidratação e atinge resistência em 1 a 3 dias. Serve pra pré-moldado, viga protendida e reparo emergencial — não pra peça maciça.
Posso usar CP V ARI em pilar de casa?
Em pilar fino (até 20×20 cm) sim, mas o ganho de tempo raramente compensa o custo extra do CP V.
O risco grave é usar CP V em peça volumosa: radier espesso, bloco de coroamento de estaca, viga baldrame robusta. O calor de hidratação cozinha o miolo, o exterior esfria mais rápido e a peça trinca por retração térmica.
Quanto custa um saco de cimento de 50 kg em 2026?
Estimativa de mercado: R$ 38 a R$ 55 dependendo do tipo, marca (Votorantim, InterCement, Holcim, Cimpor, CSN, Mizu) e região.
CP V e CPB ficam no topo da faixa (R$ 48-58). CP II-F é o mais barato. Cote sempre com entrega incluída — frete pesa em obra fora de capital.
O que é fck e onde ele aparece?
Fck é a resistência característica do concreto à compressão aos 28 dias, medida em MPa (megapascal). Vem definido no projeto estrutural, conforme NBR 6118.
Mínimos da NBR 6118 para concreto armado: 20 MPa em meio rural (CAA I), 25 MPa em meio urbano (CAA II), 30 MPa em meio marinho/industrial (CAA III) e 40 MPa no ambiente mais agressivo (CAA IV).
Qual cimento é mais sustentável?
CP III (alto-forno) e CP IV (pozolânico). Eles substituem boa parte do clínquer por escória siderúrgica ou pozolana (cinza volante, cinza de casca de arroz).
A queima do clínquer é a etapa que mais emite CO2 — a literatura de tecnologia do cimento aponta fatores da ordem de 0,8 t de CO2 por tonelada de clínquer.
Cada quilo de clínquer trocado por escória ou pozolana derruba essa pegada. Migrar para CP III ou CP IV reduz sensivelmente o CO2 do concreto — por isso são os tipos de baixo carbono.




